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Abreus - História
José Geraldo Pereira Baião
Abril/2002

Vista Aérea
Abreus é um aconchegante, tranqüilo,
hospitaleiro e simpático distrito pertencente ao município
de Alto Rio Doce. Abreus localiza-se na zona da mata mineira e fica
a uma distância de 224 km da capital mineira, Belo Horizonte.
Na realidade, Abreus não está distante de ninguém
e nem de nenhum lugar em especial. Abreus está sempre perto,
sempre presente no coração de quem o conhece. Abreus
é antes de um espaço físico-geográfico,
um estado de espírito, uma concepção de identidade
de todo um povo que se irmana por conta de um destino comum - o
de pertencer à grande família abreuense. Desse ponto
de vista, Abreus pode estar em São Paulo, em Brasília,
em Campo Grande e, até mesmo, nos áridos e inóspitos
desertos da Tunísia. Coordenadas geográficas são,
portanto, irrelevantes e insuficientes para se determinar a real
extensão de Abreus. Fazendo-se uso de uma filigrana lingüística
e abusando de certo arroubo poético, poder-se-ia dizer que
o Abreus não está (aqui, ali) e sim que o Abreus é
(existe).
As origens abreuenses remontam ao Gênesis bíblico,
quando Deus resolveu criar aqui na Terra um paraíso de delícias.
Logo, a concepção do que viria a ser um dia Abreus
partiu de ninguém menos do que o próprio Criador.
Já em tempos imemoriais, o Deus supremo já antevia,
em sua onisciência, o que seria o Abreus - um lugar de harmonia,
de companheirismo e de infinita paz, um paraíso em que jorrariam
copiosamente deleitantes e saborosas cachacinhas. Burocraticamente
falando, a materialização do desejo divino concretizou-se
apenas e tão-somente no início do século XX,
quando Abreus foi fundado em terrenos doados pelas irmãs
Alexandra Maria de Jesus e Francisca Rosa de Jesus, conforme escritura
lavrada pelo escrivão da cidade de São Caetano do
Xopotó, hoje Cipotânea, em 4 de agosto de 1903. Finalmente,
o desejo divino estava concretizado! Pelo Decreto nº 148, de
17 de dezembro de 1938, Abreus foi elevado à categoria de
distrito pertencente ao município de Alto Rio Doce.
Antes de sua fundação, Abreus se chamava São
Sebastião dos Abreus. O nome Abreus é atribuído
ao nome da família Abreu, doadora do terreno em que se ergueu
a majestosa cidadela, que ficou inicialmente conhecida como "a
terra dos Abreus". Mas o nome Abreus reveste-se também
de uma aura poética, uma vez que, decompondo-se-lhe os elementos
constituintes (a + breus), vislumbra-se o que é, na essência
e verdadeiramente, o nosso Abreus: uma ausência de escuridões
e trevas, um lugar de plena luminosidade.
Abreus possui cerca de 142 km², fazendo divisa com Dores do
Turvo, Mercês (terra do nosso ilustre Afonso Paneleiro), Cipotânea,
Brás Pires e Alto Rio Doce. O distrito tem aproximadamente
3.000 habitantes, e outros tantos milhares mais espalhados por esse
"imenso mundo de meu Deus", como diria a nossa querida
matriarca Sá Olides.
O povo abreuense sempre se caracterizou pela forte religiosidade.
Assim, logo após a fundação do vilarejo, toda
a comunidade se empenhou para construir a primeira capela do povoado.
Tratava-se de uma humilde capelinha, fundada em 20 de janeiro de
1904, localizada onde anos mais tarde seria erguida a igreja atual.
A padroeira dessa capela foi Santana, escolha feita em homenagem
a todas as mães do vilarejo, pois, como é sabido,
Santana foi a mãe de Nossa Senhora e, portanto, proclamada
a "Padroeira das Mães".
Em 1920, a comunidade abreuense construiu, no centro da vila, uma
capela em homenagem a São Sebastião, por influência
do padre José Pinto Carneiro, devoto fervoroso do Santo Guerreiro,
e chegado ao dito santo tanto na fé como na belicosidade
verbal em que se expressava em seus incendiários sermões.
Em 1962, tem início a construção da atual igreja
de Abreus. Novamente, toda a comunidade se envolveu nesse projeto
de dimensões ciclópicas para o lugarejo e para as
condições da população. Dedicar-se-ia
a nova igreja a São Sebastião. Assim, mais uma vez
os partidários do Santo Guerreiro vão à forra
sobre os devotos de Santana. O responsável pela obra foi
o Sr. Geraldo Augusto Baião, sogro de uma Rezende, Geni -
a primogênita da família e casada com José Olinto
Baião, um dos mais atuantes e entusiastas da construção
da nova igreja.
No intuito de se organizarem as várias etapas da construção
da nova igreja, formou-se uma comissão, cujo presidente foi
o Sr. Antônio Ribeiro de Rezende, conhecido na cidade como
Sô Nicó. Dessa comissão fazia parte o ilustre
e inqualificável João Pereira de Paiva, figura ímpar
e o maior empreendedor que Abreus já conheceu. João
Pereira de Paiva trabalhou árdua e incansavelmente na construção
do faustoso empreendimento religioso.
Hoje, a igreja de São Sebastião de Abreus é
ponto de referência na arquitetura da cidade e marco da arquitetura
de toda a região.
O pároco de Abreus, como não poderia deixar de ser,
também é um Rezende. Trata-se do digníssimo
padre Rogério Venâncio de Rezende, subordinado à
paróquia de Cipotânea, uma vez que Abreus não
dispõe (ainda) de paróquia própria.
Sempre fiel a seu pioneiro espírito democrático e
conciliador, o distrito de Abreus conta também com uma igreja
da Assembléia de Deus, comandada pelo pastor Zezinho. Diferentemente
de outros povos, que brigam, se xingam e se matam por causas religiosas,
em Abreus convivem pacífica e harmoniosamente católicos,
protestantes, espíritas e até uns desocupados ateus.
Isso é possível porque, antes e acima das várias
opções religiosas, está o amor à terrinha
natal e a cada um de seus habitantes, vistos uns pelos outros não
como católicos, protestantes, espíritas ou ateus,
mas sim como irmãos fraternos e abençoados por terem
tido o privilégio indescritível de nascer em Abreus.
Em 1947, foi inaugurada a primeira escola de Abreus, que só
funcionava até o 3º ano primário. Posteriormente,
o prefeito de Alto Rio Doce, Dr. João Moreira dos Reis, mais
um abreuense ilustre, conseguiu junto à Secretaria de Educação
do Estado de Minas Gerais uma banca examinadora para o 1º e
o 4º ano primário. Era o ano de 1953. Fizeram parte
da primeira turma "quartanista" os Rezendes Geni e José
Pereira, os dois primeiros rebentos da prolífica família
do Seu João Pereira e de Dona Olides.
Somente em 1980, no mandato do prefeito Araken Mendes Marinho, inaugurou-se
a escola municipal de 1º grau, abarcando da 1ª à
8ª série do ensino fundamental. Ainda em 1980, a escola
passou à alçada do Estado e recebeu o nome de Escola
Estadual Antônio Teixeira de Carvalho, um personagem completamente
desconhecido e ignorado pelo povo de Abreus - intrigas políticas,
enfim. Hoje, o belo prédio da escola abriga cerca de 300
alunos e tem como diretora Amélia Barros Rezende, casada
com o enfezado Rezende Jair Pereira.
Abreus, como toda cidade interiorana, tem como sua principal fonte
de renda a agricultura e a pecuária. Os principais cultivos
são: milho, feijão, arroz e cana-de-açúcar
- isso sem contar o vasto mandiocal da horta da D. Olides. A pecuária
leiteira chegou a constituir a principal atividade do distrito,
mas, com a queda do preço do leite "in natura",
os produtores da região partiram para a produção
da cachaça - saía de cena o leite branco e viscoso
que tanto bem faz bem às crianças e adultos e entra
em cena o leite límpido e cristalino da cana-de-açúcar,
que espíritos ilumina com seu sabor e cheiro inconfundíveis.
Assim, ganha destaque a cana-de-açúcar, em razão
da grande quantidade de alambiques que surgiram no distrito. Hoje,
produz-se cerca de um milhão de litros de cachaça
por ano em Abreus, abastecendo principalmente os mercados de Barbacena
e Belo Horizonte. Nunca é demais lembrar que em Abreus se
produz uma das melhores cachaças do mundo, a Rezendina -
que, não por mera coincidência, é produzida
pela família Rezende desde 1954. A Rezendina é conhecida
em toda a região como "a melhor cachaça que o
homem já produziu". O segredo de tamanho sucesso deve-se
às condições especialíssimas em que
esse néctar divino é produzido: engenho tradicional
com roda d'água, fermentação completamente
natural e destilação cuidadosamente supervisionada
pelo ilustríssimo Rezende Juraci Pereira.
Consta que o primeiro alambique da região foi instalado por
Juventino Bernardo Cardoso, em 1952. Dois anos após, o patriarca
dos Rezendes, João Pereira de Paiva, começou a produção
da cachaça Rezendina, superando em qualidade todas as outras
cachaças que se produziam na região. Hoje, outros
dois Rezendes da família também são produtores
de cachaça: Jair Rezende, produtor da "Pereirinha",
tão apreciada durante a Festa da Cachaça de Abreus,
e João Pereira Rezende, que produz a enigmática "Fogoió".
Para saber detalhes sobre a cachaça produzida em Abreus,
consulte a seção Cachaça
Rezendina.
Em 3 de março de 1943, foi instalada em Abreus
a primeira usina de eletricidade na propriedade do coronel Sebastião
Rezende em sociedade com seu genro Manoel Martins Portela. Essa
usina fornecia precariamente a iluminação para Abreus.
O coronel Sebastião Rezende vendeu, então, a usina
para o Sr. Antônio Ribeiro que, posteriormente, vendeu-a para
o nosso grande João Pereira de Paiva, que com ela permaneceu
até 5 de outubro de 1969, quando o prefeito João Moreira,
tirando esse pesado fardo das costas do patriarca dos Rezendes,
trouxe para Abreus uma unidade da Cemig, transferindo para o Estado
a responsabilidade de fornecer energia elétrica para Abreus.
A história da usina pode ser lida com detalhes na seção História da Família.
As festas folclóricas de Abreus são um atrativo à
parte. Mesmo diante da dificuldade de arrecadação
de recursos e da implosão avassaladora dos costumes e das
tradições perpetrada pela globalização
planetária, que na realidade não passa de uma americanização
de todo o planeta, o povo de Abreus faz questão de manter,
e com orgulho, suas mais tradicionais festas folclóricas,
dando um exemplo de consciência da importância das tradições
na formação de um povo a todo o planeta - é
o Abreus "segurando a peteca" e não deixando as
tradições populares acabarem.
Os principais festejos folclóricos de Abreus são a
Folia de Reis (de 6 a 20 de janeiro), Queima do Judas (no Domingo
de Páscoa) e a Congada (na tradicional Festa do Rosário
em outubro). Mais detalhes na seção Festas
Típicas.
Abreus também conta com a magnífica "Festa da
Cachaça", que se inicia no dia de "Corpus Christi",
uma quinta-feira, e vai até o domingo seguinte. Não
há uma gota sequer de sacrilégio em se começar
uma festa profana no dia dedicado ao corpo de Cristo; muito pelo
contrário, os produtores de cachaça de Abreus reconhecem
em Cristo um grande e inestimável aliado, uma vez que o Profeta
de Nazaré sempre esteve sentado à mesa acompanhado
dos amigos e todos deleitavam-se de bebidas e com farta comilança.
Também nunca é demais lembrar que o primeiro milagre
do Cristo foi a transformação da pobre e simples água
em... vinho! Cristo já sabia das coisas...
Em 1995, tentou-se emancipar o distrito de Abreus, mas a tentativa
foi frustrada, pois, segundo decisão do Tribunal Regional
Eleitoral mineiro, a cidade não cumpriu a exigência
de comportar um eleitorado mínimo de 2.000 eleitores, segundo
o art. 111 da Lei Complementar nº 37/95.
Nos últimos dez anos, inegavelmente, houve um significativo
progresso em Abreus. A cidade já dispõe de telefones
(que funcionam), serviço de correios, posto de saúde,
destacamento militar e comércio bastante diversificado. Entretanto,
é de lamentar a precariedade das condições
de transporte na região. Embora haja um fluxo intenso de
veículos (aí incluindo também carros de boi,
carroças, charretes, e outros veículos típicos
da zona rural), para se chegar a Abreus passa-se por uma terrível
e às vezes intransitável estrada de terra - chegar
a Abreus costumeiramente constitui uma verdadeira "via crucis"
(vide seção Como Chegar).
O povo espera e cobra de seus políticos o tão sonhado
asfalto, que não vem, que não vem, que não
vem, que não vem, que não vem... Em épocas
eleitorais, todos os políticos, à direita e à
esquerda, prometem mundos e fundos e o tão sonhado asfalto,
mas o povo como sempre fica a ver navios.
Conta a lenda que nos primeiros anos de existência de Abreus,
um comerciante de nome Chico Cabral vendeu a um circo que por Abreus
apareceu algumas dezenas de pregos para a montagem do picadeiro.
Mas, como o circo foi um retumbante fracasso, o dono do circo, completamente
inadimplente na cidade, levantou poeira deixando para trás
as dívidas contraídas e o picadeiro do circo armando
no centro da cidade. Para que não ficasse no prejuízo,
Chico Cabral foi à luta e, sozinho, desmontou o picadeiro
do circo a fim de recuperar, um a um, os pregos adquiridos pelo
dono do circo.
A venda de Chico Cabral era também
um boteco onde todos, ao final da tarde, reuniam-se para colocarem
em dia as suas poucas novidades. Por ocasião da desmontagem
do circo, todos que à lojinha acorriam não encontravam
o seu proprietário, ocupado que estava na árdua tarefa
de "catar" os pregos não pagos. Conta a lenda que
um senhor de nome José Silvério, que, como bom abreuense,
era chegado a uma cachacinha, furioso com a ausência recorrente
do proprietário do estabelecimento, começou a chamar
Chico Cabral de "cata-prego". O nome pegou e, com o tempo,
passou a designar a própria cidade de Abreus. Chico Cabral
há muito deixou Abreus, mas as cidades vizinhas, com o intuito
de provocar os habitantes de nossa boa terrinha, adotaram o apelido
de "cata-prego" quando se referiam a Abreus ou a qualquer
um de seus habitantes. Apesar de odiado pelo povo abreuense, o apelido
pegou. Fazer o que, não é?!
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