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Abreus - Cabana
José Geraldo Pereira Baião
Maio/2002
A Cabana é o ponto de apoio
etílico-logístico dos Rezendes em Abreus.
Não se trata aqui, como o nome pode erroneamente sugerir,
de uma tapera inóspita, suja, freqüentada por moscas
varejeiras e bêbados inconvenientes. E nem se pense que, por
ser situada no interior do país, a Cabana ofereça
a seus freqüentadores uma trilha sonora breganeja ou pagodeira.
Muito pelo contrário, a Cabana, desde sua inauguração,
aspirou a ser universal: seu proprietário, Geraldo Pereira
("Piriá"), faz questão de mostrar a todos
o seu espírito cosmopolita, dissertando sobre a ousadia comportamental
exótica do cantor Elton John nos idos anos 70, sobre a singularidade
revolucionária dos Beatles no panorama da música pop
internacional nos anos 60 e sua influência sobre os conjuntos
musicais que se lhes seguiram, sobre a hermenêutica de Avohai,
sobre a genialidade de um genial entre os geniais (falando de George
Harrinson), e outros assuntos de não menos relevância
no panorama cultural pré e pós-globalização.
A Cabana oferece a seus visitantes música de qualidade, tira-gostos
feitos pela tia Sônia, ambiente familiar e até climatizadores
(dois ventiladores que, dependendo da ocasião, do humor do
proprietário e se o povo de Abreus merecer, são eventualmente
ligados). É sempre bom lembrar que é expressamente
proibido na Cabana: quebrar copos, dançar, pedir músicas
sertanejas, forró ou pagode, falar que a cerveja está
quente, pedir caipirinha, ficar do lado de dentro do balcão,
abrir as janelas, dizer que o trailer do Tanga está cheio
de gente, falar bem de outras cabanas, levar crianças, fazer
carnaval, reunir o pessoal depois do futebol, pedir para armar a
mesa de pingue-pongue, dizer que o som está muito alto, pendurar
a conta por mais de 17 anos, fazer baile de formatura e festa de
aniversário, conversar com o proprietário na Semana
Santa e na Festa do Rosário, dizer que Abreus está
cheio de gente na Festa da Cachaça, pedir ao Vicente Daniel
para tocar violão antes das 3h da madrugada, pedir uísque,
pedir para caprichar na dose, deixar de elogiar o ambiente, deixar
de elogiar a música, deixar de elogiar os banheiros ("você
já viu os banheiros da cabana de Dores?"), ficar no
espaço entre o balcão e a parede (o Zéti pode,
mas com restrições), pedir para abrir às segundas,
terças, quartas e quintas-feiras ("tô trabalhando
muito"), pedir a saideira por conta da casa ao fechar a conta,
dizer que a saideira de graça vai ficar para outro otário
pagar... ufa! mas atenção: respirar pode, desde que
bem devagarzinho, é claro. O verdadeiro nome da Cabana é
"Chalé", mas o povo adotou mesmo foi Cabana, confirmando
o famoso ditado "vox populi, vox Dei".
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